@Title: Lesson given by Maria

@File: pnatte03

@Participants: MAR, Maria (woman, C, 3, professor, interviewed, Angola/Lisboa)

@Date: 00/11/2001

@Place: Faculty of Arts of the University of Lisbon

@Situation: lesson

@Topic: Lesson about realism, romantism and literature

@Source:

@Class: formal, teaching, monologue

@Length: 27'11''

@Words: 3.156

@Acoustic_quality: A

@Transcriber: Sandra Pereira

@Revisor:

@Comments: MAR lived in Angola until the age of 18. She has been living in Lisbon ever since.

 

*MAR: notem que o que ele está a fazer é uma teorização da narrativa // e a narrativa pode de facto / insistir... e a narrativa é uma sucessão de acções e portanto / trata da duração do tempo / trata do modo como se expõem as acções no tempo / expõe sobretudo a sucessão dos acontecimentos // e como nesse ritmo de exposição / funcionam accções nucleares e acções que são resolvidas pela relação que as acções nucleares estabelecem com as outras // e por isso ele diz / é uma operação / o conto / se quisermos podemos perceber a narrativa em geral / embora o conto tenha algumas especificidades também / como sabem / uma operação que se realiza sobre a duração // e ao dizer isto não tem outro meio de explicar / &eh / o / a rapidez / o porquê / é um sortilégio que actua sobre o passar do tempo / contraindo-o ou dilatando-o // portanto / é uma maneira de facto de trabalhar o tempo // ou se põe o tempo muito contraído de modo que a acção seja rápida / vá &eh / muito velozmente ao ponto que interessa / ou seja uma acção lenta / de reflexão / de interioridade / como / aliás / já referimos ontem e já vamos continuar // só gostava de vos chamar a atenção sob um ponto // já repararam como / &eh / ele / ao dizer que o segredo da versão que ele prefere assenta na economia da narração / o caracteriza deste modo // os acontecimentos / independentemente da sua duração / tornam-se agudos / ligados por segmentos rectilíneos / num desenho em zigue-zague que corresponde a um movimento sem pausas // pausa / aqui / evidentemente / deve ser entendida também no sentido narrativo // a pausa na narratologia / ou no / na narrativa / corresponde a acontecimentos / à / à ausência de referência explícita de acontecimentos e a reflexão sobre o que se está a passar / não é? quando ontem vos dizia / a propósito do / daquele capítulo do romance do homem rico de Camilo Castelo Branco / onde / &eh / Camilo inicia dizendo poupe o leitor / ou o leitor gostaria de ver agora / &ah / o encontro do / do marido e da mulher recheado de drama e de lágrimas / ela a desmaiar de cinco em cinco minutos nos braços da freira / mas eu vou poupar / &eh / isso não interessa para agora e vou poupar o leitor a essas coisas // e depois tem páginas e páginas sobre a questão da / do / do que é o visualismo em / em literatura / os amigos das visualidades que põem coisas que afinal nunca existiram... é uma espécie de crítica a uma perspectiva dita realista // ora / ele leva páginas a comentar isso e só depois diz / bem / o que interessa é que eles se encontraram // vai retomar a acção no ponto em que a tinha deixado // notem como a pausa ocupa um espaço da narração a que não corresponde tempo de acção nenhum // é de facto o espaço do discurso do narrador // e estes espaços / por exemplo em autores como Camilo Castelo Branco / ou Garrett / são determinantes para a interpretação dos acontecimentos // inclusivamente / noutras circunstâncias / Camilo tem de facto tendência para pôr a acção muito rápida // aponta os pontos / ou se quiserem / para não dizer aponta os pontos / &eh / aponta as situações mais determinantes da sequência e daquilo que quer transmitir // mas depois faz longas pausas // portanto como sabem / julgo eu que / que isso está mais ou menos assente / mas eu posso aproveitar para vos referir esse aspecto // como sabem / &eh / a relação entre o tempo dito tempo da história ou o tempo / &eh /